Feministas se unem para debater direitos sexuais e autonomia reprodutiva no 14º EFLAC

No primeiro dia, tambores tocavam o som de boas vindas a uma grande festa. Mulheres do mundo inteiro chegavam a Montevidéu, Uruguai, para abrir o 14º Encontro Feminista Latinoamericano e Caribenho, o EFLAC. Realizada a cada três anos, a reunião é momento único na busca por soluções aos desafios enfrentados pelas mulheres da região. E a safe2choose aproveitou a oportunidade para se somar às discussões sobre autonomia reprodutiva e direitos sexuais.

Havia mulheres das mais distintas trajetórias e organizações. Representantes da luta contra a violência de gênero e em busca de uma educação igualitária. Feministas antirracistas, pelo fim da opressão contra pessoas negras e indígenas. Ativistas articuladas contra a lesbofobia, a transfobia e a discriminação sofrida por profissionais do sexo.

Entre os principais temas discutidos no EFLAC estavam aborto e autonomia reprodutiva

Muitas de nós buscávamos melhores formas de se promover o acesso à informação e ao aborto seguro. Soluções para a despenalização social do aborto, para acabar com o estigma que persegue aquelas que decidem abortar e, principalmente, para proteger a vida das mulheres.

A programação do EFLAC foi intensa, obviamente, já que mais de duas mil participantes estavam reunidas para criar estratégias em prol das latinas e caribenhas. Como parte da agenda, a safe2choose propôs um espaço para todas aquelas interessadas em promover o aborto seguro como uma opção em seus países. Participaram da roda de conversa importantes organizações, meios de comunicação feministas e estudantes que lutam desde já por um futuro mais justo, com acesso a direitos e autonomia reprodutiva.

Entre elas, estavam representantes dos coletivosLas Comadres, Coordinadora Juvenil por la Equidad de Género e Salud Mujeres (todas as três do Equador), Colectiva Mujeres y Salud (República Dominicana),Malona Rosa (Argentina), Ibis Reproductive Health, Coordinadora Feministas en Lucha (Chile), Warmis en Resistencia (Bolivia), Finadas do Aborto (Brasil) e, também, a Frente Popular Darío Santillán – Corriente Nacional (Argentina) e Portal Catarinas (Brasil), além de acadêmicas de importantes universidades brasileiras como Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Universidade de Brasília (UnB).

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Tivemos a oportunidade de entender melhor a situação de diversos países e os problemas enfrentados por mulheres da região. Desde doenças muito específicas durante a gestação, como a anencefalia (bastante comum na República Dominicana), até a perseguição policial e política, crescente em países como Guatemala e no Brasil. Aprender sobre a região nos estimulou a aprimorar ainda mais nossos serviços de orientação e de distribuição nos países da América Latina e do Caribe.

Mas isso não foi tudo. Também tivemos a oportunidade de participar de conversas realizadas por organizações que também defendem o acesso ao aborto seguro, além de conhecer melhor o trabalho desenvolvido por grupos como Women on Waves e Women on Web (Holanda), Fondo María (México), Colectiva Feminista La Revuelta – Socorristas en Red (Argentina), Con las Amigas y en la Casa (Chile), Serena MorenaWomen Help Women e Ibis Reproductive Health.

Ouvimos relatos sobre o estigma enfrentado também por aquelas que oferecem o acesso ao aborto seguro. O que nos deixou ainda mais seguras da importância de nos unirmos para tecer uma rede cada vez mais resistente de apoio ao direito de decisão das mulheres, frente a tantos fundamentalismos e ameaças de retrocessos.

A discussão em torno do aborto abrangeu várias outras frentes de atuação. Desde grupos que buscam formas de proteger a segurança das mulheres que abortam, a ações que promovem a conscientização do aborto como apenas mais um procedimento médico entre tantos outro e ao trabalho de juristas penalistas pró-aborto. Também se falou da importância do enfrentamento aos fundamentalismos religiosos e sobre a busca da autonomia da mulher sobre seu corpo no sentido mais amplo da palavra.

Após três dias de intenso intercâmbio de ideias e sincronia de estratégias, o 14º EFLAC terminou com uma grande marcha, repleta de energia e de canções empoderadas em defesa das mulheres. Na simbólica data do 25 de novembro, honramos o Dia Internacional da Não-Violência Contra a Mulher pelas ruas de Montevidéu.

Foi um encontro marcante, fonte de diversas trocas e descobertas, onde não só reafirmamos nossa defesa do acesso ao aborto seguro na América Latina e no mundo, mas onde adquirimos aprendizados que seguramente aplicaremos daqui pra frente, em apoio à livre decisão das mulheres sobre sua sexualidade e seus corpos.

Mal podemos esperar por daqui a três anos, quando nos reencontraremos com tantas mulheres extremamente fortes. Que nos lembram de que não estamos sozinhas. E, principalmente, de que tu não estás sozinha. De que existem muitas mulheres no mundo que, embora não conheças pessoalmente, se preocupam contigo e com teu futuro.

Por Michell Mor