Vivian, Brazil

Engravidei aos 25 anos. Eu imaginava que esse tipo de coisa nunca aconteceria comigo.

Eu me cuidava…até entrar nas estatísticas de falhas com medicação

Vi acontecer com várias mulheres, mas comigo? Não, eu me cuidava…até entrar nas estatísticas de falhas com medicação. O mesmo remédio que teve efeito na minha vida por anos me deixou na mão.

Meu parceiro e eu morávamos juntos e não tínhamos problema algum, nem pessoal, de relacionamento ou financeiro. Ainda assim, filhos não estavam no plano no momento pois, apesar de não termos problemas, ambos tínhamos planos individuais e nenhum deles envolvia filhos, motivo que sempre nos levou a tomar cuidados. Não tive dúvidas na decisão. Ser mãe ou pai – bons de verdade – requer muito. Requer maturidade, paciência, tempo, vontade de se doar para outro ser. E eu não teria condições de nada disso, simplesmente porque não buscava ser mãe naquele momento.

Como poderia me entregar inteiramente à idéia da maternidade, se no fundo sempre me arrependeria por não ser o meu desejo? Por quê me forçaria se era contra a minha vontade? Não há vergonha na sinceridade, não há motivo para mentir para si mesmo. Adicionado a isso, mesmo declarando total apoio para qualquer que fosse a minha decisão, meu parceiro compartilhava os mesmos sentimentos, não tinha o desejo de ser pai. Se tivesse levado a gravidez adiante, poderíamos ter sido até pais decentes agora, contudo com certeza estaríamos infelizes.

Então, juntos, começamos a estudar opções de aborto. No país em que vivemos o aborto não é legalizado, portanto estávamos por nossa própria conta e risco. Descobrimos na internet sobre o misoprostol e por não termos a opção de adquirir o medicamento de forma legal, fomos às ruas procurar no mercado irregular. Saímos às cegas perguntando para ambulantes até conseguirmos os contatos de vendedores. Compramos 4 comprimidos e um chá abortivo. Tomei tudo e tive um sangramento pequeno. Porém, quando realizei o ultrassom, ainda estava grávida. Ao pesquisar mais sobre o uso do misoprostol para entender porquê não havia funcionado, acabamos concluindo que talvez tivesse sido a dosagem. Nas nossas teorias com base nas pesquisas, ela teria sido fraca. Compramos mais 8 comprimidos. Nessa segunda tentativa, sofri com um forte mal estar, contudo, sem sangramentos. Ao repetir o ultrassom, a gravidez permanecia. Ao todo eu já tinha ingerido 16 comprimidos de misoprostol e um chá abortivo.

Resolvemos buscar ajuda. Encontrei o site estrangeiro Women on Waves e entrei em contato relatando minha experiência. Não demorou para receber uma resposta me aconselhando a fazer o aborto em uma clínica legalizada. Me passaram uma lista com possíveis países para os quais eu poderia viajar. A situação ficava difícil, mesmo porque meu tempo para aborto em clínica legalizada também estava chegando ao limite. Precisávamos ser rápidos. A essa altura do campeonato, sequer pensava em desistir, afinal, como saber até que ponto minhas tentativas de aborto não teriam afetado o feto? Como poderia trazer ao mundo um bebê que poderia ter resquícios das minhas ações pro resto da vida? Não, isso não aconteceria. Sentamos, meu parceiro e eu, e estudamos como faríamos, para onde iríamos. No final, pegamos dinheiro de nossas poupanças e fomos para a clínica Marie Stopes, em Londres.

Não vou mentir, eu estava com muito medo, meu parceiro também. Contudo, ao mesmo tempo, não tínhamos dúvidas sobre a decisão. Na rua, em frente à clínica, fomos abordados por ativistas anti-aborto que entregavam panfletos com imagens e textos horríveis na intenção de fazer você desistir de entrar na clínica. Nós seguimos. Já dentro da clínica, os atendentes explicavam todo o procedimento em detalhes, nos deixando seguros. Recebi um tratamento muito humano naquela clínica, de forma que deixo a indicação dela para quem precisar. Para finalizar meu depoimento, gostaria de deixar claro que em momento algum me orgulho do aborto. Mas também não tenho vergonha em admitir, pois tenho plena noção de que de fato, uma gravidez naquele momento não era o que eu queria.

Tive a sorte de ter um parceiro decente que me apoiou em tudo, assim como tive a sorte de ter condições de poder viajar para outro país. Infelizmente, não são todas que tem a mesma sorte. A partir deste acontecimento na minha vida, passei a compreender claramente certas coisas, como a empatia. Por ser mulher, como toda mulher, estou sujeita a ter que decidir sobre uma gravidez. O que acontece com uma, pode acontecer um dia comigo também. Eu entrei nas estatísticas do aborto junto com pelo menos outras 20 mulheres que vi na clínica naquele dia comigo. E mais outras 10 que conheço pessoalmente. Você que está lendo isso, se parar para pensar, deve conhecer alguém que abortou, ou alguém que conhece alguém que abortou. A realidade é essa.

Compreendi também a importância de lutar pelo aborto legalizado, principalmente no quesito de segurança. Na minha história, nada me aconteceu quando tomei os comprimidos por conta própria. Mas às vezes me pego pensando no que poderia ter acontecido, como vejo acontecer com outras mulheres nas manchetes das notícias. Passei a apoiar entidades como a Women on Waves ou mesmo a Safe2choose para onde deixo este depoimento agora. Essas entidades são, literalmente, um porto no meio do mar. Bem como clínicas altamente profissionais como a Marie Stopes.

Por fim, carrego comigo a esperança de que um dia todas as as mulheres tenham o direito ao aborto legalizado, para que não precisem mais sofrer com métodos arriscados e ilegais que coloquem suas vidas em risco por, assim como eu, não quererem ser mães.